Alguns dias após o nascimento, a criança era apresentada no templo. Havia um homem justo e piedoso chamado Simeão, que aguardava a vinda do Salvador, e foi impelido pelo Espírito Santo a ir ao templo naquele momento. Ao ver Jesus e seus pais, bendisse a Deus, abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma”.
(Lc 2, 34-35)
A espada ou punhal representado nas imagens de Nossa Senhora das Dores se deve a profecia de Simeão, de que uma espada lhe transpassaria a alma. A Igreja entende que isso se cumpriu quando Maria, estando aos pés da cruz, viu Seu Filho ser transpassado por uma lança (Jo, 19, 31-34). Ainda que já estivesse morto, a lança que atingiu o lado de Cristo, espiritualmente atingiu o coração e alma de Sua Mãe.
De um lado vemos a dor de Nossa Senhora pelo sofrimento de Cristo e por nossos pecados, e queremos consolá-la.
Por outro, vemos nossas tantas dores e dificuldades e pedimos que nos console, ampare e ensine a também seguirmos a Cristo, a também fazermos tudo o que Ele disser, a também estarmos com Ele aos pés da cruz, nos sofrimentos.
Dentre tantas orações a Maria, surgiu a oração das Sete Dores de Nossa Senhora, conheça.
Primeira Dor: A dor que Nossa Senhora sofreu ao ouvir a profecia de Simeão, de que uma espada de dor trespassaria seu coração.
Segunda Dor: A dor que Nossa Senhora sofreu quando fugiu para o Egito com o Menino Jesus para fugir da fúria do Rei Herodes.
Terceira Dor: A dor que Nossa Senhora sofreu quando perdeu o Menino Jesus por três dias, quando ele estava pregando num templo.
Quarta Dor: A dor que Nossa Senhora sofreu quando viu Jesus carregando a cruz no ombro a caminho do Calvário.
Quinta Dor: A dor que Nossa Senhora sofreu ao assistir a morte de Jesus, crucificado entre dois ladrões.
Sexta Dor: A dor que Nossa Senhora sofreu quando recebeu em seus braços o corpo inanimado de Jesus, descido da cruz.
Nossa Senhora vai… Céu de esperança
Coroando-lhe o perfil judaico e fino…
E um raio de ouro que lhe beija a trança
É como um grande esplendor divino.
O teu olhar, tão cheio de ondas, lança
Clarões longínquos de astro vespertino.
Sob a túnica azul uma alva Criança
Chora: é o vagido de Jesus Menino.
Entram no Templo. Um hino do Céu tomba.
Sobre eles paira o Espírito celeste
Na forma etérea de invisível Pomba.
Diz-lhe o velho Simeão: “Por uma Espada,
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada…
Sofrer por Ele! E pálida, ofegante,
Nossa-Senhora aperta-O contra o seio.
E nas linhas tranqüilas do semblante
Descem-lhe nuvens de magoado anseio.
Sofrer por Quem! Ventura semelhante,
Só a um peito como o seu de estrelas cheio…
Sofrer por Esse que do Céu distante
Na voz do Arcanjo do Senhor lhe veio…
Que lhe importavam lágrimas sem brilho,
Nessas horas de paz erma e saudosa,
Se ela chorava por seu próprio Filho…
Sofrer pela amargura dessa Boca,
E aos Pés depor-lhe a vida desditosa,
Vida que eterna ainda seria pouca!
Que lhe importavam lágrimas? Chorasse
Desde o nascer do sol até o sol posto;
Tivesse prantos quando a lua nasce,
Quando, entre nuvens, ela esconde o rosto.
Junto ao seu Berço, a contemplar-lhe a Face,
De Mãe Divina no sublime posto,
Temendo que uma estrela O despertasse,
Gozo teria no maior desgosto.
Por Ele toda a mágoa sofreria…
Ah! corresse-lhe em fonte ardente o pranto
Na paz da noite e nos clarões do dia.
Sofrer por Ele… Sim. Tudo por Esse
A quem beijava os Olhos, mas contanto
Que Ele, o seu Filho amado, não sofresse!
E as palavras do Velho em tom celeste
Murmuraram-lhe assim: “Por uma Espada,
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada…”
Chorou. “Guardião do Templo, que disseste?”
E a ansiedade passou-lhe contristada
Pela Alma, como a sombra de um cipreste
Plantado à beira de uma encruzilhada.
Talvez que toda aquela noite espessa
Profetizada pelo Velho, triste
Viesse envolver de luto outra Cabeça…
Sim! Pois vê-Lo sofrer era por certo
Ter em meio do peito a lança em riste,
E em chaga viva o coração aberto.
Pudesse ela poupar-lhe o sofrimento,
Adivinhar-lhe as dores e os pesares,
Ter poeiras de astros para o mal sedento,
Ter bons olhares para os maus olhares…
De repente, num rútilo momento,
Na Alma surgiu-lhe uma visão de altares:
Era a grandeza do seu Nascimento
No Lar eleito em meio de outros lares…
Mas que fizera para tanta glória,
Sentir a Deus chamá-la Mãe querida,
Ela, mulher, como as demais corpórea?
E a aparição daquele Arcanjo etéreo,
Que lhe anunciara a nova prometida,
Engrinaldou-lhe a fronte de mistério…
De luar vestido, o fúlgido semblante
Entre bastos cabelos irisados,
E sobre o flanco a túnica irradiante
Que eram nesgas de céus nunca sonhados:
Os seus olhos de poente e de levante
Em silêncios de luz ilimitados;
Era o celeste Cavaleiro andante,
Anunciador de místicos Noivados…
E que Noivado o seu! Nuvens radiosas
Cercando o Mensageiro altivo e doce,
Debaixo de amplo céu de seda e rosas…
E dentro das olheiras cor-de-goivo,
O olhar da Virgem santa eternizou-se:
O Espírito de Deus era o seu Noivo…
Em teu louvor, Senhora, estes meus versos,
E a minha Alma aos teus pés para cantar-te,
E os meus olhos mortais, em dor imersos,
Para seguir-lhe o vulto em toda a parte.
Tu que habitas os brancos universos,
Envolve-me de luz para adorar-te,
Pois evitando os corações perversos
Todo o meu ser para o teu seio parte.
Que é necessário para que eu resuma
As Sete Dores dos teus olhos calmos?
Fé, Esperança, Caridade, em suma.
Que me chegue em breve o passo derradeiro:
Oh! dá-me para o corpo os Sete Palmos,
Para a Alma, que não morre, o Céu inteiro!